Os serviços digitais também têm uma cadeia de valor física
Ver um vídeo, ouvir música em streaming ou utilizar um serviço na nuvem parece uma atividade imaterial. No entanto, estes serviços dependem de dispositivos, redes de telecomunicações e centros de dados. O fabrico dos equipamentos exige matérias-primas e energia; a sua utilização consome eletricidade; e a infraestrutura precisa de manutenção e substituição ao longo do tempo.
A Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) permite analisar estes contributos de forma integrada, desde a produção dos equipamentos até à utilização da infraestrutura e ao fim de vida.
O que procurou medir o estudo sobre o YouTube
Um estudo de Preist, Schien e Shabajee analisou os serviços digitais do YouTube durante 2016, estimando as emissões de gases com efeito de estufa associadas à utilização da plataforma. O trabalho considerou diferentes componentes da cadeia, incluindo os dispositivos dos utilizadores, as redes de transmissão e os centros de dados.
O estudo estimou, para esse ano e de acordo com os pressupostos utilizados, um consumo de eletricidade de 19,6 TWh e emissões associadas de 10,1 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. Estes valores são estimativas históricas de um modelo publicado sobre 2016 — não representam o consumo atual do YouTube nem devem ser extrapolados para outros serviços sem análise.
Os autores também exploraram cenários de conceção e utilização que poderiam reduzir a transmissão de dados em situações específicas, como disponibilizar apenas áudio quando o conteúdo visual não é necessário. A relevância de cada intervenção depende do comportamento dos utilizadores, da tecnologia e da infraestrutura utilizada.
Onde estão os impactes?
A pegada de um serviço digital pode incluir:
- o fabrico e a substituição de computadores, telemóveis, televisores e equipamentos de rede;
- o consumo de eletricidade dos dispositivos durante a utilização;
- a transmissão de dados pelas redes fixas e móveis;
- a operação e o arrefecimento dos centros de dados;
- a construção, manutenção e fim de vida da infraestrutura.
O contributo relativo de cada etapa varia consoante o tipo de serviço, o equipamento, a localização, o cabaz elétrico, a eficiência da rede e a vida útil dos dispositivos.
O desafio metodológico
A ACV de serviços digitais exige fronteiras bem definidas e dados representativos. É necessário explicitar a unidade funcional — por exemplo, uma hora de vídeo transmitido com determinada qualidade — e os pressupostos relativos aos dispositivos, ao tráfego, à ocupação dos servidores e à afetação dos consumos partilhados.
As emissões dos serviços digitais também colocam desafios à contabilização empresarial de GEE. O GHG Protocol organiza as emissões nos Âmbitos 1, 2 e 3, mas a aplicação prática aos serviços digitais depende da forma como a organização define a sua cadeia de valor, recolhe dados e evita a dupla contagem. A ACV oferece uma perspetiva complementar, orientada para o serviço e o seu ciclo de vida.
O exemplo de 2016 continua a ser útil como demonstração metodológica. Para decisões atuais, porém, é necessário utilizar dados recentes e específicos da infraestrutura e do serviço analisado.
